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O princípio fundamental do judaísmo se resume nestas palavras: Amarás ajudando o necessitado, amarás protegendo o desamparado, amarás salvando vidas em perigo, amarás resgatando a dignidade humana, amarás absorvendo os teus irmãos em Israel, amarás hoje. Todos os dias. Sempre. "... e amarás o teu próximo como a ti mesmo." Levítico 19:18

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Judeus no Brasil Colônia

Os hebreus, como o próprio significado do termo revela, são um povo peregrino. Eles são uma etnia que se espalhou por todo o mundo e não foi diferente no Brasil Colônia, aonde eles também chegaram e se estabeleceram, fundindo-se com a cultura cristã ou mesmo rejeitando-a. Temos aqui apresentado um pouco da história e da situação dos indivíduos de ascendência israelita no Brasil, de 1500 aos primeiros anos da década de 1620, o que será feito de uma forma bem sintética pelo facto de tratar-se de um pequeno ensaio. Primeiro traçaremos um breve retrato da posição da “gente da nação” em Portugal, para então partir para o Brasil, comentando a sua participação na “descoberta” e colonização da América Portuguesa. Depois o enfoque passará para as visitações do Tribunal do Santo Ofício no Brasil, relatando alguns de seus principais feitos, sem, no entanto, expor denúncias ou confissões ocorridas ou mesmo construir profundas análises sobre o assunto. O encerramento do trabalho se dará buscando o intento de algumas explicações para a não fixação de um Tribunal do santo Ofício da Inquisição em território brasileiro.

Índice

 Antecedentes

Sabe-se que a presença hebraica na península ibérica é muito antiga, tendo eles seguramente precedido os godos, mouros e talvez até mesmo os romanos. Entretanto, a história desse povo em Portugal (tratando-se de Idade Média e até mesmo um pouco depois do século XVI) ainda é pouco conhecida, se comparada aos progressos neste campo na Espanha. Mesmo assim, muitos fatores importantes que precederam a vinda da população de origem judaica para o Brasil são conhecidos e ajudam a explicar determinados fatos.

No período Medieval, Portugal foi o primeiro país a reconhecer os direitos dos judeus e também foi onde a propaganda ideológica antijudaica penetrou mais tarde. Isso foi fundamental para os judeus espanhóis que não aceitaram se converter, que então partem para Portugal onde suas condições de sobrevivência seriam possíveis. Alguns anos mais tarde, depois do estabelecimento da inquisição na Espanha, D. Manuel I, rei de Portugal, pressionado pela nação vizinha concorda em expulsar os judeus, mas para não agravar a crise que já estava instalada na península (tendo em vista que estes concentravam em suas mãos parte importante do poder econômico), proíbe-lhes que saiam e obriga-os a converter-se ao catolicismo com um decreto outorgado em 31 de Março de 1496.

Após estes fatos, os conversos, perante a lei tornavam-se imediatamente cristãos imbuídos dos mesmos direitos dos outros. Logo, as duas etnias deveriam somar-se e não se apartar. Contudo, a burguesia cristã-velha, tendo o cristão-novo como principal concorrente econômico, e ainda alimentada pela diferença de padrões culturais, criou o preconceito.Para então tornar eficiente a exploração econômica, essa burguesia portuguesa (assim como já havia ocorrido na Espanha), utiliza-se dos preconceitos e mitos, que através dos séculos XVI e XVII vão penetrar e criar raízes nas mentes da maioria da população da Península Ibérica. Isso principalmente nas camadas inferiores, que vão assimilar o mito da pureza de sangue para poder (atitude praticamente inconsciente) identificar-se com os nobres e honrados, já que de outra forma não o poderiam fazer. Já do lado dos cristãos-novos, poderia se dizer que em Portugal estes organizaram uma espécie de “força de resistência” ,pois com a instituição do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição em Portugal a 6 de Julho de 1547, muitos voltaram à velha fé, às vezes até obsessivamente, reforçando então o criptojudaísmo existente no país.

As classes dirigentes os colocavam como razão da situação desastrosa na qual encontrava-se o Reino e a Inquisição, que se prestava a esta casta, justificava neste ínterim a sua existência, a qual era financiada pelos confiscos dos bens de cristãos-novos condenados, muitas vezes até injustamente, pois parafraseando um contemporâneo destes acontecimentos, o Embaixador Coutinho, diz João Lúcio de Azevedo: “...tinham eles em mira apossar-se da fazenda dos réus, para a desfrutarem, e não, como diziam, para os converter” .Desde a descoberta do Brasil em 1500, as atenções de muitos cristãos-novos se voltaram para a terra recém descoberta, pois estes ansiavam deixar Portugal. Seria então em um contexto similar e resultante do exposto acima que existiriam os cristãos-novos brasileiros.

Primeiros cristãos-novos no Brasil

Gaspar da Gama

As provas históricas disponíveis registram a presença de um único cristão-novo em meio aos primeiros portugueses que vieram ao Brasil: Gaspar da Gama. Anteriormente, mais precisamente no ano de 1498, estava ele a serviço do Governador muçulmano de Goa na ocasião em que Vasco da Gama encontrava-se ali nas proximidades, quando Gaspar aproximou-se da nau capitânia portuguesa, exprimindo seu contentamento em ver um navio de sua terra natal (a Espanha) e logo pediu consentimento para poder subir a bordo, no que foi prontamente atendido e sendo recebido, a princípio, cordialmente, até que o aprisionaram, suspeitando que fosse um espião, e por isso torturaram-no para extirpar-lhe confissões. Ele declarou, meio a outras coisas, ser judeu de Granada. Vasco da Gama recusou-se libertá-lo pois objetivava tirar benefício de seu conhecimento sobre a Índia e do fato de saber muitas línguas, levando-o a Portugal onde, apadrinhado por Vasco, recebeu o batismo forçadamente, recebendo a partir daí o nome cristão Gaspar da Gama (não se sabe seu nome judeu). Por seu poliglotismo foi designado pelo rei como conselheiro e intérprete de Pedro Álvares Cabral na expedição que chegaria ao Brasil.

Quando Nicolau Coelho pisou em solo brasileiro pela primeira vez, estava acompanhado por Gaspar, que por sua vez tentou frustradamente comunicar-se, juntamente com outro intérprete, com os índios tupis em africano (língua da Guiné) ou em arábico (aravigo). Após essa expedição, diz-se que Gaspar da Gama ainda prestou serviços valiosos na Índia à coroa portuguesa. Não se sabe se era judaizante ou bom católico.

Fernão de Noronha

Em 1501 Portugal enviou uma expedição comandada por Américo Vespúcio à nova terra para a avaliação da qualidade e valor do território. Como Vespucci relatou que o local não possuía ouro e prata, nem pedras preciosas, ou mesmo outros materiais importantes.

D. Manuel resolve então arrendar o Brasil a homens com poder econômico, que poderiam arriscar seu próprio dinheiro para colonizar e explorar a terra, sendo a primeira concessão feita a um consórcio de cristãos-novos, encabeçado por Fernão de Noronha (também conhecido por Fernão de Loronha). Esses arrendatários teriam o monopólio do país para o corte e exploração do pau-brasil e para o comércio de escravos e todas as demais mercadorias lucrativas, tendo como dever mandar seis barcos ao Brasil por ano, descobrirem 300 léguas de novas terras e também construir e manter fortificações nesses territórios (o primeiro acordo estabelecia três anos, sendo o primeiro ano isento de taxas, mas no segundo e no terceiro seriam pagos 1/6 e 1/4 do valor dos bens, respectivamente). O consórcio despachou os seis primeiros navios com mercadorias e tropas em 1503 e Fernão de Noronha, que estava presente na expedição, descobriu no mesmo ano uma ilha próxima à costa setentrional do Brasil, à qual nomeou de São João – mas que ficou conhecida por Ilha de Fernão de Noronha (actual Fernando de Noronha) – e colonizou 50 léguas de terras na costa brasileira.

Por estes fatos, e também por outros serviços prestados no passado e por outros que se esperavam no futuro, D. Manuel I, o nomeou Cavaleiro da Coroa e donatário vitalício da ilha de São João – sendo seu primogênito o herdeiro do direito da Capitania – por decreto de 16 de janeiro de 1504, tornando-se, deste modo, o primeiro donatário do Brasil. Recebeu também o direito de ficar com os lucros obtidos da exploração daquele território, mediante a obrigação de colonizar por conta própria determinada área. Noronha também arrendou a concessão da exportação de pau de tinta (pau-brasil) para Portugal por 4.000 ducados pagos anualmente à Coroa, que por sua vez proibiu a competição do pau de tinta vindo da Índia. A quantidade exportada anualmente era de vinte mil quintais (2.000 toneladas), que custavam ao arrendatário com todas as despesas incluídas, meio ducado enquanto que em Lisboa cada quintal seria vendido por dois e meio ou três ducados cada quintal, conferindo ao grupo de Noronha um lucro líquido anual de cerca de cinquenta mil ducados(32). Não se pode afirmar com certeza, mas esse contrato provavelmente abrangia os anos de 1503 a 1512 ou 1503 a 1515.

Pelo que parece, Fernão de Noronha não foi batizado à força (o batismo compulsório em Portugal foi decretado em 1497 e desde 1494 ele já era Cavaleiro da Casa Real, tendo, segundo os testemunhos, adotado voluntariamente a religião cristã) e seu padrinho, de quem herdou o nome Noronha, era descendente de Henrique II, rei de Castela e fazia parte de uma das mais importantes famílias da Península Ibérica.

Diogo Fernandes

Em 1516 foi decretado por El-Rei D. Manuel que fossem entregues aos emigrantes que fossem para o Brasil todos os equipamentos necessários e também um perito que auxiliasse na introdução da indústria açucareira na colônia. Como o Oriente ainda absorvia grande parte do interesse do cristão-velho, provavelmente eram muitos os cristãos-novos a se aventurarem nesta empresa, pois faziam parte de uma classe detentora de muitos recursos financeiros. O sociólogo Gilberto Freire afirma que a mecânica judaica da indústria do açúcar teve de ser importada pelo Brasil, e isso é confirmado pela historia de Duarte Coelho, o primeiro a ocupar-se do desenvolvimento intensivo e sistemático da indústria do açúcar, e donatário de Pernambuco, que trouxe feitores treinados e trabalhadores qualificados das Ilhas da Madeira e de São Tomé (regiões nas quais a cultura açucareira já era desenvolvida e que proporcionaram a Portugal a liderança no mercado mundial de açúcar) para o Brasil, que provavelmente eram em sua maioria judeus, que eram o melhor elemento econômico do tempo, e lucravam com fugir à fúria religiosa que grassava na Península . Não obstante, não se deve esquecer do fato de que no Brasil muitos senhores de engenho eram judeus. Dos cinco engenhos existentes em 1550, ao menos um pertencia a judeus, o Engenho de Santiago, propriedade do judeu Diogo Fernandes e seus associados também judeus. Segundo consta, este era um grande engenho, com boas terras e águas, além de muita madeira. Entretanto foi destruído mais tarde em uma guerra com índios de Igaraçu, o que fez com que Diogo e sua família ficassem muito pobres. O governador de Pernambuco, Jerônimo de Albuquerque fez saber o acontecido ao rei de Portugal, D. João III, e na carta enviada, após contar o episódio dos índios, afirmava que na habilidade e conhecimentos necessários para administrar engenhos, ninguém no Brasil se igualava a Diogo, que sem dúvida era realmente, entre os técnicos trazidos ou chamados por Duarte Coelho, o mais importante.

Outras participações

A colonização era um verdadeiro combate, pois além dos perigos naturais que a nova terra oferecia, os colonos tinham que enfrentar também as populações indígenas. Logo, cristãos-novos e cristãos-velhos, que na Europa (generalizadamente) se odiavam, por falarem ambos o português, por padecerem de vicissitudes análogas e encerrarem interesses comuns, praticamente se irmanam na conquista do solo brasileiro. Seria esta a única alternativa passível de sucesso. Muitos marranos e cristãos-novos participaram de alguma forma nas expedições que dilataram a colonização para o Norte, para o Oeste e para o Sul, pois participações importantes de elementos de sangue judeu são notadas nas conquistas do Rio Grande, do Rio de Janeiro, da Paraíba, de Sergipe e do Maranhão.

O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição e o Brasil

Em 1535 era adotada em Portugal a prática de deportar criminosos para o Brasil, e desde a introdução da Inquisição naquele país os judeus também eram tratados da mesma forma. Apesar da Inquisição nunca ter sido formalmente inserida no Brasil, o Santo Ofício de Lisboa chegou a conceder poderes inquisitoriais ao Bispo da Bahia na década de 1580, que enviava os acusados para serem julgados em Lisboa e alguns anos depois fez algumas visitações no território brasileiro. Com isso, a "gente da nação" nunca mais pôde viver tranquilamente, ainda que fossem cristãos sinceros, pois havia muitas falsas acusações forjadas por inimigos e mesmo que fossem absolvidos, estavam marcados para o resto de suas vidas.

Visitação do Santo Ofício na Bahia (1591-93)

Um dos principais objetivos da visitação era a denúncia de lares judaizantes (mas havia outros fins, como denunciar lares Luteranos e determinadas práticas sexuais). Ao chegar, o visitador Heitor Furtado de Mendonça nomeou uma comissão inquisitorial, publicou um Auto-de-Fé, uma Carta de Graça para a cidade da Bahia e seus arredores e uma Carta Monitória que em um de seus trechos menciona as seguintes práticas e cerimônias judaicas que deveriam ser confessadas ou denunciadas (trata-se apenas de um pequeno resumo): observância do Sábado de acordo com a tradição judaica; matança de aves e animais de acordo com a tradição judaica; não comer carne de certos animais e peixes; observância dos dias de jejum judaicos; celebração dos dias de festa judaicos; recitação de preces judaicas; recitação dos Salmos da Penitência, omitindo o Gloria Patri, et Filio, et Espiritu Sancto; o tratamento, sepultamento dos cadáveres e o luto segundo o costume judaico; colocar ferro, ou pão, ou vinho, em jarros ou cântaros na véspera de S. João e na noite do Natal, para simbolizar a crença de que nessas ocasiões a água se transformava em vinho; a bênção das crianças, de acordo com a tradição judaica; circuncidar os meninos e atribuir-lhes, em segredo, nomes judaicos; raspagem do óleo e do crisma após o batismo da criança. Também era exigida a denunciação de qualquer tentativa de converter cristãos-velhos ou novos ao judaísmo (ou mesmo ao islamismo) . A Igreja não pôde intervir com os cripto-judeus, apenas incomodando aos que não se precaviam para esconder este fato. Inicialmente a visitação causou alvoroço entre os judaizantes, porém a maioria dos processos contra os judaizantes da Bahia foram incapazes de condená-los por insuficiência de provas, sendo que pouquíssimos foram levados à sede do Tribunal em Lisboa.

Visitação do Santo Ofício em Pernambuco (1593-95)

Após chegar em Recife, o visitador Mendonça estabeleceu os órgãos e fez as promulgações, em Olinda e em alguns outros locais e paróquias, similares às realizadas na Bahia. Os relatos desta visitação mostraram que uma parte relevante da população branca era constituída de judaizantes que começaram a chegar no século XVI, e que eram, em sua maioria, homens de poder econômico (fazendeiros, comerciantes, etc.) .

1596 – 1624

Com a partida do visitador coube novamente ao bispo da Bahia as atividades que caberiam à Inquisição. O resultado do relatório do visitador que colocava em questão a sinceridade do clero brasileiro foi a criação de uma lei em 1603 que estipulava que só poderiam ser nomeados oficiais da Igreja cristãos-velhos. Por outro lado, em 1601, o decreto de 1587 que proibira a saída de cristãos-novos foi revisto e a partir daí eles poderiam sair de Portugal ou vender suas propriedades sem necessitar de permissão. Com isso iniciava-se uma melhora na situação geral dos cristãos-novos. Em 1605, o rei obteve um perdão geral do Papa, que valia por um ano, e que compreendia todos os cristãos-novos portugueses. O preço deste ato foi de 1.700.000 cruzados em dinheiro, mais a anulação do débito do tesouro real em 225.000 cruzados. Assim, 410 prisioneiros foram postos em liberdade pelos tribunais inquisitoriais e foi proibido referir-se à um cristão-novo como “judeu”. A quantia de 1.700.000 foi dividida entre todos os cristãos-novos de Portugal e a parte dos brasileiros foi firmada em dezoito contos. Mesmo com esses acontecimentos, a atitude discriminatória para com eles continuou e fica evidente a intenção da Coroa em somente obter mais dinheiro, pois novas leis os proibiam de ingressar no “serviço das letras” e de sair de Portugal sem antes pagar sua parte na tributação(53), além de que pessoa alguma da “Nação Hebraica” estava isenta de sua quota, nem nobres, nem cavaleiros, fidalgos ou mesmo casos individuais. Após o definhamento do ano do perdão, a Inquisição reiniciou a perseguição aos cristãos judaizantes.

Visitação do Santo Ofício na Bahia (1618)

O visitador Marcos Teixeira, ao chegar na Bahia, logo organizou uma comissão inquisitorial e um tribunal. Os relatórios desta visitação mostraram que os judeus confessos de Flandres e os marranos brasileiros mantiveram constantes comunicações entre si, exercendo desta maneira, através de seus familiares e de suas ligações comerciais, um papel muito importante na organização da exportação do açúcar do Brasil. Esta visitação produziu resultados praticamente insignificantes, contudo causou grandes preocupações em muitos marranos que inclusive resolveram deixar o Brasil. Depois da partida do visitador, um decreto real de 1623 nomeou Marcos Teixeira (outro Marcos Teixeira, não o visitador) como Bispo do Brasil encarregado de todos os assuntos da Inquisição no país.

Possíveis motivos da não criação do Santo Ofício no Brasil

É bem provável que algumas vezes se tenha cogitado a criação do Santo Ofício para o Brasil, tendo como incentivo os das terras americanas sob domínio espanhol e o de Goa, porém uma série de dificuldades poderiam ter impedido esta realização, sendo elas : o grande número de despesas geradas pelo funcionamento de um tribunal inquisitorial; um tribunal apenas para um país com grande extensão como o Brasil não daria resultados eficientes; o estabelecimento de um (ou mais)Tribunais do Santo Ofício no Brasil traria grandes prejuízos econômicos, pois com a falta de estabilidade, os cristãos-novos poderiam mudar-se para uma região ou país considerados mais seguros, levando então consigo seus capitais; a própria vida da Igreja seria desorganizada, já que grande parte dos clérigos e de outros religiosos era cristãos-novos e além disso, muitos outros eclesiásticos não dariam (e muitos não deram realmente) apoio a este tentame, já que os recursos que os sustentavam eram provenientes dos dízimos, cujos contribuintes principais eram sujeitos de linhagem israelita ou seus consórcios.

Fonte: Wikipédia

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PRESENÇA JUDAICA NA LÍNGUA PORTUGUESA EXPRESSÕES E DIZERES POPULARES EM PORTUGUÊS DE ORIGEM CRISTÃ-NOVA OU MARRANA

A 2a guerra mundial acabou em 1945. O mundo assistiu as atrocidades cometidas pelos nazistas contra o povo judeu. No entanto, nos bastidores, a versão oficial da história vem sendo refutada por certos grupos. Trata-se de uma nova forma, distorcida, diga-se, de interpretar o holocausto: o revisionismo histórico ou negacionismo

Gente da nação
cristãos-novos e judeus em Pernambuco, 1542-1654
José Antônio Gonsalves de Mello.

Published 1989 by Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana in Recife.
Written in Portuguese.

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Holocausto

O número exato de pessoas mortas pelo regime nazi continua a ser objecto de pesquisa.

Documentos liberados recentemente do segredo no Reino Unido e na União Soviética indicam que o total pode ser algo superior ao que se acreditava. No entanto, as seguintes estimativas são consideradas muito confiáveis.

  • 6.0 – 7.0 milhões de polacos
    • dos quais 3.0 – 3.5 milhões de polacos judeus
  • 5.6 – 6.1 milhões de judeus
    • dos quais 3.0 – 3.5 milhões de judeus polacos
  • 3.5 – 6 milhões de outros civis eslavos
  • 2.5 – 4 milhões de prisioneiros de guerra (POW) soviéticos
  • 1 – 1.5 milhões de dissidentes políticos
  • 200 000 – 800 000 roma e sinti
  • 200 000 – 300 000 deficientes
  • 10 000 – 25 000 homossexuais
  • 2 500 – 5 000 Testemunhas de Jeová[3]

Existe alguma polêmica em relação a estes números, principalmente entre grupos anti-semitas, mas não só. A obra de Norman Filkenstein, A Indústria do Holocausto defende que este número de mortes em campos de concentração (notadamente na Alemanha) e de extermínio (na Polônia) tem servido para obtenção de vantagens econômicas e também políticas.

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ARCA DA ALINÇA

O Aron Hakodesh - a Arca Sagrada ou Arca da Aliança - era o ponto focal do Tabernáculo, o local de maior santidade pelo fato de abrigar as Tábuas da Lei e a Torá, Testemunhos da Aliança Eterna selada no Monte Sinai entre D'us e Seu povo. Era também um "caminho" para a mais elevada dimensão espiritual; pois, como está dito na Torá, o Eterno se comunicaria com Moisés "por sobre a Arca". (Êxodo 25:22)

Terminara uma experiência extraordinária. Do topo do Monte Sinai, envolto em espessa nuvem, D'us Se revelara diante de todo Israel por meio da Shechiná, a Presença Divina. E, destarte, selara Sua aliança com o Seu povo.

Durante a Revelação, Israel atingiu alturas espirituais inconcebíveis, tendo um contato com a Presença Divina e ouvindo de Sua tonitruante Voz as Leis que norteariam para sempre sua existência. Em que implicaria, para eles, o término dessa Revelação e a saída do Monte Sinai rumo ao deserto? A Shechiná os abandonaria ou continuaria constantemente entre eles?

Foi nesse momento que D´us, por amor a Seu povo, ordena-lhes a construção do Mishkán, o Tabernáculo, para ser o local onde, seguindo Sua determinação, pairaria a Shechiná. Segundo o sábio espanhol Don Yitzhak Abravanel, ao transmitir Sua Vontade, o Eterno visava assegurar a Israel que não abandonaria o mundo terreno. Indicava, pelo contrário, Sua permanência entre eles. Sua Providência estaria sempre por perto, apesar de envolta em um véu, oculta aos comuns mortais. O Mishkán seria para Israel um sinal de que sempre haveria uma via de comunicação com D´us, independente de quão distantes estivessem do local da Revelação, já que lá não havia santidade intrínseca. O que conferia santidade era a Presença Divina e a Sua Torá, Sua Palavra, que a partir da Revelação estaria para sempre com Israel. A importância do Tabernáculo pode ser constatada pelo fato de quase a totalidade da segunda parte do livro Êxodo ser dedicada à sua descrição e construção, assim como ao detalhamento de seus implementos. O Talmud, o Midrash, a Cabalá assim como comentários de nossos Sábios revelam simbolismos, fatos e minúcias sobre cada aspecto da construção. Cada detalhe, cada objeto e cada simbologia, são profundamente discutidos, analisados e esmiuçados a tal ponto que seria impossível, neste simples artigo, pretender cobrir as interpretações e conotações do assunto.

Segundo Nachmânides, grande sábio e místico espanhol do séc. XIII conhecido como Ramban, a edificação do Mishkán foi vital para nosso povo, pois, por seu intermédio, o propósito do Êxodo foi totalmente alcançado. Como explica Ramban, D´us instruíra os Filhos de Israel para construir o Tabernáculo para que a Shechiná sobre este pudesse pairar. Portanto, foi através do Tabernáculo que a elevação espiritual - que Israel atingira temporariamente durante a Revelação, no Sinai - tornou-se permanente.

O ponto focal do Mishkán era o Aron Hakodesh - a Arca Sagrada. Guardada no lugar de maior santidade do Tabernáculo, no Kodesh ha-Kodashim, a Arca iria abrigar os bens mais preciosos de Israel, símbolo da Aliança firmada no Sinai: as duas Tábuas da Lei, onde D'us inscrevera os Dez Mandamentos, os fragmentos das primeiras Tábuas estilhaçadas e o Sefer Torá original, que, ditado por D´us, fora transcrito por Moisés.

Por conter o testemunho da Palavra Divina, a Arca é o ponto de maior santidade de todo o Mishkán, o local onde se revelaria a Shechiná. Pois, seria de lá, afirma a Torá, "por sobre a Arca" que o Todo Poderoso se comunicaria com Moisés. Assim como no Monte Sinai o "Grandioso Encontro" fora único e poderoso, o "ininterrupto" encontro no Mishkán - mais precisamente, sobre a Arca - daria um prosseguimento àquele extraordinário acontecimento e ao relacionamento entre D´us e Seu povo.

O Mishkán

Como vimos acima, o Mishkán e todos os seus implementos eram o símbolo e a indicação, para o povo, de que a Presença Divina estava constantemente entre eles. Eram o símbolo de sua consagração como "um reino de sacerdotes e um povo santo". Em outras palavras, o Mishkán tinha como principal objetivo o aperfeiçoamento espiritual do ser humano. O Midrash nos alerta, porém, que tanto o Santuário do Deserto como o Templo, mais tarde, eram apenas representações materiais do "verdadeiro Santuário", o lugar que D´us escolhera para "habitar " - e este é o coração de todo judeu.

Segundo a Cabalá, o Tabernáculo é o microcosmo do universo e, como tal, reflete as verdades mais profundas sobre a vida e a Criação. Uma de suas finalidades era ensinar ao homem que ele tem a responsabilidade de elevar e santificar a si mesmo e a toda a Criação. Numa escala infinitamente mínima, dizem os textos místicos, o Mishkán reflete a Fonte Universal da qual emanam as bênçãos sobre toda a Criação.

O Tabernáculo era também o ponto de convergência de toda a Nação, um centro espiritual que os congregava, fazendo deles um grupo homogêneo e coeso. Localizado no centro dos acampamentos das doze tribos, seria um local onde todo judeu poderia purificar-se, elevar seu espírito e conseguir o perdão Divino. Estas funções couberam, posteriormente, ao Templo Sagrado, em Jerusalém. Em termos estruturais, o Mishkán era uma construção notável. Muito provavelmente foi a primeira estrutura pré-fabricada, no mundo. Apesar de bastante grande - media 6,10m de altura por 7,30m de largura por 25m de comprimento - toda a sua estrutura podia ser desmontada e transportada de um local para outro. Assim sendo, pôde acompanhar os israelitas enquanto vagavam pelo deserto. Mesmo após terem entrado na Terra de Israel, vez por outra foi necessário transportá-lo para novas paragens. De acordo com a tradição bíblica, ficou em Guilgal durante 14 anos, em Shiló durante 369 anos e, por último, em Nov e Guivon, durante um total de 57 anos. Foi o rei David quem, após conquistar Jerusalém e expandir seu reinado, finalmente trouxe a Arca para Jerusalém. Sabia ser a cidade escolhida pelo Eterno para que lá fosse edificado um Templo permanente, em substituição ao Tabernáculo móvel e provisório que nos acompanhara em nossa epopéia pelo deserto.

Apesar de sua aparência externa modesta, quase austera, o interior do Mishkán era esplêndido, repleto de ornamentos em ouro, prata, pedra preciosas, materiais suntuosos e os mais adocicados perfumes. Treze diferentes matérias primas foram usadas para a sua construção e de seus implementos, bem como das vestes dos sacerdotes. E todo o povo de Israel participou, com suas oferendas, desta obra magistral.

Apesar dos esforços e do entusiasmo, inúmeras foram as complicações surgidas em relação à sua planta e execução. O profundo simbolismo imbuído em cada um de seus objetos implicava em um cuidado todo especial na execução do menor detalhe que fosse. Segundo o Midrash, enquanto estava no Monte Sinai, D'us mostrou a Moisés, feito em fogo, o modelo exato do Santuário e de seus implementos. Mas, tamanha era a complexidade que, em certas ocasiões, D´us teve que mostrar certos objetos, mesmo ao maior de nossos profetas, quatro vezes.

Para executar a complexa tarefa, D'us escolhera Betsalel, da tribo de Judá; e, para ajudá-lo, indicara Aholiav, da tribo de Dan. Estes, assim como todos os que ajudaram, foram imbuídos por D´us de profunda sabedoria para o desempenho de suas tarefas. A Moisés caberia a responsabilidade de integrar as partes em um todo, já que somente a ele D´us mostrara a planta, em sua totalidade.

O Aron Hakodesh - a Arca sagrada

A primeira instrução que D´us deu a Moisés em relação ao Tabernáculo foi confeccionar um repositório para abrigar "o Testemunho que Eu Te darei". Se analisarmos de uma forma lógica, a Arca não deveria ser construída até ter uma estrutura que a abrigasse. E, de fato, foi isto o que finalmente aconteceu. Somente após a estrutura estar pronta Betsalel confeccionou a Arca, o único implemento que, sob supervisão pessoal de Moisés, ele fez com suas próprias mãos, pois aí pousaria a Shechiná.

Mas, foi a primeira ordem Divina, pois a Torá, testemunho eterno do relacionamento especial entre D´us e Seu povo, é infinitamente mais importante que a estrutura que iria abrigá-la. É por conter o testemunho da Palavra Divina que o Aron é o ponto de maior santidade de todo o Mishkán.

No capítulo 25 do Êxodo, a Torá provê os detalhes referentes à confecção da Arca. Relata o texto bíblico que D´us ordenara que todo Israel participasse da construção, nem que fosse com alguma contribuição simbólica ou apenas em pensamento - uma exceção no que diz respeito aos mandamentos acerca da construção dos outros objetos sagrados. Os Sábios explicam que com isto cada um dos membros de nosso povo teria a sua parte, o seu quinhão de participação na Torá.

Sua estrutura

A Arca era uma caixa retangular medindo 2,5 cúbitos de comprimento e 1,5 cúbito de largura e altura. Feita de madeira de acácia, uma espécie de cedro - em hebraico, shitim, era aberta por cima e devia ser revestida, por dentro e por fora, de uma camada do mais puro ouro. Rashi, o maior comentarista da Torá, explica que para a confeccionar conforme as especificações Divinas, Betsalel fez três caixas. A primeira, de madeira de acácia. Uma segunda, maior, de ouro puríssimo, dentro da qual era colocada a caixa de madeira. Por último, uma terceira, menor, que foi colocada dentro da caixa de acácia. Desta forma, o receptáculo principal era coberto de ouro em seu interior e exterior. Para confeccioná-la, foram utilizados o mais puro ouro e madeira porque, explicam nossos sábios, a Torá é como o ouro em seu valor e pureza, mas é também chamada de Árvore da Vida.

O ouro é primeiro na lista dos materiais a serem utilizados na construção do Tabernáculo. O Midrash observa que este metal é particularmente adequado para o Santuário, pois o objetivo deste era o "refinamento" espiritual do ser humano. Assim, como se refina o ouro bruto de suas impurezas, de modo semelhante deveria o judeu tentar apurar-se cada vez mais, espiritual e moralmente. Além do que, o ouro puríssimo do Aron serviria como símbolo de que o homem deve tentar alcançar a pureza não somente em suas ações e pensamentos, como também nos instrumentos que utiliza para a sua realização.

Na parte superior da Arca devia haver uma borda de ouro, como que a coroá-la (Yomá, 72b). Segundo o Midrash, o Aron simboliza a Torá e, a borda, a "Coroa da Torá". D´us conferiu ao povo de Israel três coroas: a da Torá, a da Kehuná (o sacerdócio) e a da monarquia. Acima das três, está a da Torá.

A Tampa e os Querubins

Uma tampa, kaporet em hebraico, do mesmo comprimento e largura do Aron Hakodesh e de ouro puríssimo devia cobrir a Arca para a fechar. O Midrash explica o nome kaporet. O termo deriva da palavra kapará, que significa expiação. É uma indicação de que o ouro usado em sua confecção serviria para expiar a grave transgressão que Israel cometera ao fazer o "Bezerro de ouro".

Sobre esta tampa, em suas extremidades, havia "dois querubins de ouro batido". Como D´us ordenara a Moisés que tanto os querubins como a tampa deviam ser feitos da mesma peça de ouro, Betsalel os havia moldado cinzelando as extremidades da tampa. No Talmud há uma descrição da aparência da Arca e dos dois querubins e inúmeras são as discussões sobre cada detalhe. Apesar das diferentes interpretações, diz a tradição que os querubins são representados como anjos com asas, como pássaros, e com rosto de criança, um de sexo masculino e outro, feminino. As asas dessas criaturas celestiais, estendendo-se para cima da tampa, formavam um arco protetor e sua face estava voltada uma à outra, inclinando-se para baixo, em direção à tampa.

É preciso que se faça uma ressalva importante. Apesar de D'us ter proibido a construção de imagens, esses querubins eram uma exceção, pois Ele Mesmo ordenara, de forma explícita, que fossem colocados sobre a Arca. E, no judaísmo, o que pode ou não ser feito depende exclusivamente da Vontade Divina. Mas, para evitar qualquer dúvida sobre a proibição absoluta de se adorar imagens e mostrar a Israel que os querubins não eram destinados à adoração, mas indicavam um lugar onde se concentrava a força espiritual, eles não ficavam de frente para o povo, mas um olhando para o outro. Além do mais, o fato de estarem colocados sobre a Arca - que abrigava as duas Tábuas da Lei e o rolo original da Torá -- era uma clara indicação da Fonte Única e Verdadeira de todo o Poder Espiritual.

Era "entre os querubins" que o Eterno comunicava-se com Seu profeta. A Torá relata as palavras do Todo Poderoso a Moisés: "E no tempo marcado, Eu estarei lá, falarei contigo desde a tampa da Arca, entre os dois querubins que estão sobre a Arca do Testemunho" (Êxodo, 25:22). Por isso, o espaço entre estas duas formas era visto por sábios e profetas como o foco principal da força espiritual e de toda inspiração profética, uma abertura para a dimensão espiritual, o próprio caminho à ascensão espiritual.

A simbologia que envolve os querubins é vasta e profunda. Em diversas ocasiões a Torá menciona essas criaturas celestiais: D'us os coloca para proteger o caminho da Árvore da Vida após a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden; na visão do profeta Ezequiel, são os portadores do Trono de Glória Divina, e aparecem em várias outras visões proféticas. Representam entre outros o dualismo inerente a toda a Criação - as duas Tábuas da Lei, mantidas no Aron Hakodesh, eram um lembrete desta mesma verdade. Além disso, representam os princípios masculino e feminino que permeiam todo o Universo. Segundo Rashi, as faces infantis simbolizavam a pureza da inocência e do amor de D'us por Israel. Não podemos esquecer que foram as crianças de Israel que haviam sido eleitas no Monte Sinai como "os fiéis guardadores da Torá". O fato dos querubins terem a forma de um ser humano alado era uma alusão à capacidade do homem de transcender os laços terrenos. E, as asas abertas em direção aos céus representavam a vontade que motiva todas as criaturas a voar para cima "em direção a esferas espirituais mais elevadas". Pois, mesmo estando o homem ligado à materialidade pelo seu corpo mortal, pode voar com as asas de sua alma e se elevar espiritualmente.

Os querubins, de acordo com os textos místicos, refletiam a relação entre D's e Israel. Explica o Zohar que assim como o homem - pó da terra - criara vida pelo Sopro Divino, também os querubins podiam criar vida, especialmente por estarem em permanente contato com a Presença Divina. Pode-se dizer que eram um barômetro extremamente sensível que "media" a unidade e a harmonia existente entre D´us e o homem. Quando Israel realizava a Vontade Divina, e aumentava o amor entre Ele e Seu Povo, os querubins ficavam frente a frente e suas asas se tocavam. Mas, quando Israel transgredia A Grande Vontade, os querubins viravam as costas e se afastavam um do outro (Bava Barsa, 99 a). Relata o Midrash que nos dias festivos - os Yamim Tovim - quando os judeus iam até o Santuário e mais tarde até o Grande Templo, as cortinas da Arca eram suspensas e todo Israel podia ver os querubins entrelaçados e perceber o grande Amor que D´us tinha por Seu povo (Yomá, 54a). Relata o Talmud que quando os romanos estavam prestes a destruir o Segundo Templo, os querubins entalhados em madeira que adornavam suas paredes, ao pressentir a desgraça que se abateria sobre Israel, abraçaram-se e choraram, copiosamente. Isto indicava que naquela hora amarga em que os Filhos de Israel iniciavam seu longo e penoso exílio, na hora de seu mais profundo desespero, o Eterno ainda estava ao lado de Seu povo, Seu amor por nós era forte e inamovível - e, portanto, abraçaram-se os querubins (Chazon L'Moed).

A mobilidade da Torá

Assim como o Mishkán, a Arca era portátil e, por essa razão, tinha quatro anéis de ouro maciço, dois de cada lado, fixados nas paredes laterais de suas quatro superfícies. Duas varas de madeira de acácia, folheada a ouro, traspassavam esses anéis para permitir que se carregasse a Arca. E, uma vez colocadas, não podiam ser mais removidas. Aliás, todos os objetos do Tabernáculo tinham varas com essa mesma função de transporte dos objetos sagrados, mas esta proibição não existe para outros objetos. Por quê? Porque, respondem nossos Sábios, a Arca devia estar sempre pronta para ser transportada de um local para outro.

Para o Rabi Shimshon R. Hirsh, a característica de mobilidade da Arca Sagrada é símbolo da intrínseca mobilidade da Torá. Nossa Lei não está amarrada a um determinado local, nem vinculada a um determinado momento no tempo, mas acompanha nosso povo por toda sua história e em todos seus exílios. Onde forem os judeus, com eles vai a sua Torá. Isto não se aplica aos demais implementos do Tabernáculo e, conseqüentemente, do Grande Templo de Jerusalém. A Arca ficou com Israel até o final do período do Primeiro Templo, desaparecendo em seguida. Mas, segundo a tradição, ainda se encontra em Jerusalém. O rei Salomão, ao construir o Templo, mandou cavar um túnel secreto e profundo por baixo do Monte do Templo para, em caso de perigo, lá esconder os implementos sagrados. Pouco antes da destruição do Primeiro Templo pelos babilônios, o rei Josias teve uma visão da catástrofe que estava para se abater sobre Israel; e, para garantir a segurança da Arca, tê-la-ia escondido justamente nesse local secreto, sob o Monte do Templo, longe dos olhos inimigos.

Se assim foi - e assim nós judeus o cremos - até hoje, O Aron Hakodesh do Mishkán está ainda oculto em algum ponto, sob o Monte do Templo, em Jerusalém, Capital Eterna do Povo Judeu.

Fonte: Morasha.

BRASIL
Origens judaicas do povo brasileiro
por Rachel Mizrahi

Nenhum país das Américas tem história tão marcada pela presença do povo judeu como o Brasil.

Ligado à epopéia dos Grandes Descobrimentos Marítimos, em 1500, D. Manoel I, rei de Portugal, conhecido como "O Venturoso", "Rei da Pimenta" e "Rei dos Judeus" (pela formidável presença destes últimos nas frotas descobridoras), determinou a Pedro Álvares Cabral e ao intérprete Gaspar da Gama (judeu, batizado católico) procederem a contatos formais com representantes das terras descobertas por Vasco da Gama, primeiro português a chegar nas Índias, em 1498. O trajeto de Cabral, em frota de 13 navios, incluía deslocamentos para o Ocidente, objetivando possível encontro com novas terras. Cristóvão Colombo, em nome da Espanha, chegara em terras da América Central em 1492, pensando estar nas Índias. O proposital desvio da rota de Cabral levou ao encontro de terra baiana em 22 de abril, segundo informa a carta do escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha. Descendentes de judeus chegaram ao Brasil, a partir de 1503. Fernando de Loronha ou Noronha, convertendo-se ao catolicismo, foi designado pelo rei D. Manoel para donatário da grande ilha do Nordeste brasileiro que hoje leva o seu nome. Noronha foi responsável pela arrematação do primeiro contrato de monopólio do pau-brasil. Com a madeira produziam-se pequenas peças de mobiliário e com sua resina coloriam-se tecidos. Deve-se a cristãos novos a introdução da cana do açúcar no Brasil, trazida das ilhas portuguesas de Açores e Madeira. Entre os que se dedicavam ao cultivo da cana no Nordeste, citamos o cristão novo, senhor de engenho, Ambrósio Soares Brandão, autor de um importante ensaio econômico intitulado "Diálogos das Grandezas do Brasil". Outro que se distinguiu na Capitania de São Vicente foi o jesuíta José de Anchieta, fundador de um Colégio, em 1554, que deu origem à cidade de São Paulo. José de Anchieta, considerado o "Apóstolo do Brasil", era filho de Mência Dias de Clavijo, cristã nova da ilha de Tenerife. Ligados aos poder e à vida econômica, os judeus da Península Ibérica, conhecidos como sefaraditas, aprofundaram-se nos estudos religiosos, filosóficos, da medicina e em sistemáticos trabalhos das ciências náuticas, astronomia e matemática, transformando-se, inclusive, em navegadores e intérpretes das expedições portuguesas. As cartas marítimas, o astrolábio e a bússola foram por eles aperfeiçoados. O ponto alto dos estudos náuticos foi realizado pelo astrônomo Abraham Zacuto, autor do "Almanach Perpetuum", no final do século 16. Esses conhecimentos permitiram a Portugal, frente ao Atlântico, preparar-se para a busca das especiarias e dos metais preciosos, especialmente procurados. Politicamente centralizado e contando com o apoio de uma burguesia predominantemente judaica, Portugal pôde desde o início do século 14 desbravar, explorar e colonizar o litoral dos continentes africano, asiático e americano. Os Grandes Descobrimentos Marítimos, associados a processos transformadores da vida político-econômica européia, ocorreram em período de enorme conturbação social na Península Ibérica. A Espanha, depois da expulsão dos muçulmanos e judeus da Espanha, em maio de 1492, buscava acomodar os 50 mil conversos, que permaneceram no reino centralizado, sob a supervisão do Tribunal da Inquisição instalado em 1480. A formidável entrada de judeus espanhóis em Portugal acarretou, poucos anos depois (1497), ação inesperada e dramática de D. Manoel: a conversão forçada de todos os judeus de Portugal, obedecendo a uma cláusula de seu casamento com a princesa espanhola. Embora o extremo ato tenha sido contrabalançado por legislação protetora aos conversos, o sucessor, D. João III, assentiu em instalar o Tribunal da Inquisição no reino, autorizado pelo papa Paulo III, em 1536. Discriminados, perseguidos e vendo limitadas as possibilidades de crescimento nos domínios ibéricos, os cristãos novos buscaram emigrar para terras da Itália, França e, no final do século 16, para a Holanda, quando a liberdade de consciência foi instituída na República. Em Amsterdã, judeus e cristãos novos de origem portuguesa estavam ligados à comercialização do açúcar brasileiro pela Europa. A Holanda, tradicional parceira de Portugal, financeiramente se responsabilizara pelo sucesso da empresa açucareira no Brasil. Apesar das proibições legais, grande número de cristãos novos buscou as possessões americanas. No Brasil, podiam ser encontrados em todas as capitanias, posicionados em diversas ocupações. Conhecidos como "homens de negócios", cristãos novos assumiram contratos reais nas transações comerciais do pau-brasil, do açúcar, do tabaco, de escravos negros e outros monopólios. Dominando a leitura e a escrita, posicionaram-se em cargos públicos administrativos, militares e religiosos, apesar de proibidos pelas leis discriminatórias dos Estatutos de Pureza de Sangue.(1) A união das coroas ibéricas (1580-1640) determinou o fim das formidáveis relações com a Holanda. Inimiga da política expansionista da Espanha católica, a alta burguesia holandesa da Cia. de Comércio das Índias Ocidentais decidiu, em 1630, com apoio das autoridades políticas, conquistar a Capitania de Pernambuco, maior produtora de açúcar, depois da fracassada invasão na Bahia em 1624. Angola, porto de escravos negros, foi igualmente tomada, revelando o real interesse da Cia. Holandesa em manter funcionando a produção, preservando a atividade das 20 companhias holandesas encarregadas do branqueamento e refino do açúcar, antes de comercializá-lo pela Europa. A tolerância religiosa foi imposta pelo invasor protestante onde o catolicismo era predominante. Diante da imposição da liberdade de consciência, grupos de famílias judias de Amsterdã, de origem portuguesa, mostraram interesse em se estabelecer no Brasil-Holandês. Dominando o português, o grupo transformou-se em intermediário de todos os negócios que se efetuavam na terra conquistada. Cuidando de suas comunidades, fundando sinagogas e organizações beneficentes, os judeus, apoiados pelo Príncipe Maurício de Nassau, administrador das terras conquistadas, transformaram-se em agentes do crescimento econômico da região, especialmente de Recife, transformada na mais importante cidade de todo o Atlântico de meados do século 17. Esclarecido e homem de seu tempo, Nassau trouxera consigo artistas, pintores, biólogos, naturalistas, cartógrafos e mais cientistas que produziram obras, hoje admiradas e consultadas por especialistas interessados em conhecer as primeiras obras escritas sobre a América e as belas pinturas de silvícolas, negros e de espécies nativas da flora e fauna brasileira. As conquistas holandesas se ampliaram para o litoral Norte, permitindo o nascimento de pequenas comunidades judaicas, entre as quais a da Paraíba e de Penedo, nas imediações do Rio São Francisco. Isaac Abuhab da Fonseca e Moisés Raphael de Aguillar, eminentes rabinos de Amsterdã, foram convidados a dirigir o culto religioso nas sinagogas "Zur Israel" e "Maguen Abraham", de Pernambuco, e supervisionar o funcionamento beneficente da "Santa Companhia de Dotar Órfãs e Donzelas". A preocupação com os horário dos rituais litúrgicos levou a que esses religiosos consultassem sábios de Salônica, cidade grega, referencial judaico do Império Otomano, esclarecendo-se sobre os horários das cerimônias em hemisfério diferente. Com a Restauração Portuguesa de 1640, Salvador, então capital da metrópole portuguesa, continuava intensamente vigiada pelo Santo Ofício da Inquisição. No ano de 1647, membros da comunidade judaica holandesa ficaram consternados com a prisão de Isaac de Castro Tartas, sobrinho do rabino Raphael de Aguillar. De origem portuguesa, Isaac de Castro, nascido em terras da França, chegara ao Brasil em 1640. Depois de visitar a Paraíba, buscou a cidade de Salvador, apresentando-se ao bispo como judeu. Pouco depois, acusado de ensinar judaísmo aos cristãos novos, Tartas foi preso e encaminhado a Lisboa para responder processo inquisitorial. Durante os interrogatórios, os juízes tentaram demovê-lo de sua crença e convertê-lo ao catolicismo, chamando eminentes teólogos para tal tarefa. Castro recusou-se a deixar sua fé, continuando a praticar, na prisão, os rituais judaicos diários. Torturado, manteve-se obstinado. Negando tudo, foi sentenciado à morte pela justiça comum, proferida na cerimônia do Auto de Fé de 1647. Considerado mártir do judaísmo, Isaac de Castro foi conduzido ao patíbulo recitando o "Shemá Israel". Morreu queimado vivo, aos 24 anos de idade. (2) As comunidades judaicas do Brasil holandês subsistiram por 24 anos, até a expulsão final pelas forças luso-brasileiras, em 1654. Embora a maioria dos judeus tenha retornado a Amsterdã, pequeno número instalou-se nas colônias holandesas de Suriname, Barbados e Curaçao, na América Central. Outro pequeno grupo, com mais de duas dezenas de pessoas, estabeleceu-se em Nova Amsterdã, organizando o núcleo inicial comunitário judaico de Nova York, hoje a maior cidade da diáspora. Embrenhar-se pelas matas em busca de aldeias para escravizar índios e vendê-los à produção de subsistência, nas capitanias sulinas, foram ocupações dos bandeirantes do século 17 e 18, alguns de origem judaica, como Raposo Tavares e Garcia Rodrigues Paes. Na busca dos índios, os bandeirantes paulistas desbravaram e estabeleceram-se em terras inexploradas, delineando os atuais contornos do território brasileiro. Em novas áreas - distanciando-se dos agentes da Inquisição - os bandeirantes acabaram por encontrar os primeiros veios do ouro, metal ansiosamente procurado pela Coroa desde o início da colonização. A exploração do ouro na Capitania das Minas Gerais, a partir de 1695, transformou a cidade do Rio de Janeiro, porto de entrada de exploradores portugueses e de mercadorias, fatores que conduziram a uma intensa vigilância sobre a cidade. A primeira metade do século 18 foi o período da maior atuação do Tribunal da Inquisição no Brasil. Denúncias - que não precisavam ser comprovadas - levaram à prisão numerosos mercadores, senhores de Engenho, mineradores, advogados e médicos, todos cristãos novos, que viviam nas capitanias do Rio de Janeiro, Bahia, Minas, São Paulo e São Vicente. O seqüestro dos bens dos "envolvidos pela heresia judaizante" era procedido assim que os suspeitos eram presos e conduzidos pelas embarcações à Lisboa. No grupo dos envolvidos pela Inquisição de Lisboa estava a família do advogado e procurador da Coroa, João Mendes da Silva, cristão novo, pai do famoso dramaturgo António José da Silva, processado e queimado em 1743. Entre seus denunciantes estava o capitão-mor da Capitania da Conceição de Itanhaém, Miguel Telles da Costa, cristão novo, também preso. Bem posicionada no Rio de Janeiro, a família Mendes da Silva viu-se obrigada a abandonar a cidade, instalando-se em Lisboa para acompanhar processos de seus familiares. Entre outros cristãos novos envolvidos pela Inquisição, na primeira metade do século 18, citamos os irmãos Alexandre e Bartholomeu Lourenço de Gusmão, originários de Santos, cidade do litoral paulista. Embora de origem judaica, Alexandre e Bartholomeu Lourenço ocuparam significativos cargos na administração pública da metrópole e do Brasil. Alexandre de Gusmão foi secretário de Estado de D. João V e, seu irmão, Bartholomeu Lourenço, o "Padre Voador", pela invenção do aeróstato, ocupou cargos político-religiosos na metrópole. A miscigenação é fato inconteste na história colonial brasileira, especialmente pela ausência de mulheres brancas, e disso não se furtou o colonizador cristão novo que, comumente, se uniu a negras e índias. Tentando encontrar na cultura brasileira conteúdo herdado dos cristãos novos, o conhecido pesquisador Câmara Cascudo lembra alguns costumes, ainda prevalecentes no meio rural(3). Aponta o abate de aves, sangrando-as, e o resguardo familiar no luto, por exemplo, como práticas de influência judaica. Além de Câmara Cascudo, especialistas de estudos do "mental coletivo brasileiro" afirmam que, a "religião de verniz" ou "ir para a igreja sem convicção interior", expressas por alguns clérigos no país, possam ter-se originado do acomodado comportamento religioso dos cristãos novos no período colonial.

Notas:

(1) Legislação que impedia a negros, índios, mestiços, judeus, cristãos novos e ciganos a ocupação de cargos públicos, militares e religiosos.

(2) Seu processo foi estudado e publicado por Elias Lipiner, sob o título: Izaque de Castro: um mancebo que veio preso do Brasil". Recife: Fundaj-Massangana, 1992.

(3) Luis da Câmara Cascudo. Mouros, Franceses e Judeus. Três presenças no Brasil. Editora Perspectiva, São Paulo, 1984.

Rachel Mizrahi é autora de A Inquisição no Brasil: Miguel Telles da Costa. O capitão judaizante de Paraty. (2ª Ed., no prelo) e Imigrantes no Brasil: Os judeus.São Paulo: Lazuli/Ed. Nacional, 2005

fonte: Morasha.

ANTI-SEMITISMO

Uma fraude centenária: Os Protocolos dos Sábios de Sião

Apesar de repetidamente desacreditado e de ter sua falsificação comprovada, o livro Os Protocolos dos Sábios de Sião se tornou o documento anti-semita mais lido, em todos os tempos.

A mais notória fraude política dos tempos modernos, "obra prima" da literatura racista, tornou-se eficiente ferramenta para o anti-semitismo moderno, desde sua criação pela polícia secreta do czar da Rússia, há mais de 100 anos. O pequeno, mas diabólico panfleto, contém minutas de um suposto conclave secreto de líderes mundiais judeus. Composto de 24 capítulos ou protocolos, o livro "descreve" os "planos" traçados na dita reunião, que, supostamente acontecia uma vez a cada 100 anos. O objetivo de tais líderes judeus seria arquitetar a manipulação e o controle do mundo que ocorreria no século seguinte. Acreditam seus seguidores que Os Protocolos contêm a "prova cabal" da existência de uma "conspiração judaica mundial" que teria como propósito "dominar o planeta". Sobre o texto, Elie Wiesel, Nobel da Paz, foi enfático ao declarar: "Se há um texto que pode produzir o ódio massificado contra os judeus, é este o texto... todo composto por mentiras e difamações". Ao longo de sua nefasta trajetória, Os Protocolos foram usados para justificar a perseguição de judeus na Rússia czarista e no período comunista e continuam em uso, até hoje, pela extrema direita russa. Nas mãos de Hitler, o texto se tornou verdadeira arma mortífera na guerra que travou contra os judeus, a partir da década de 1920. Os Protocolos também fazem parte do embasamento ideológico da extrema-direita americana e européia, bem como da extrema-esquerda da Europa. E, desde 1921, vêm sendo usados no mundo islâmico, sendo que hoje as cópias desta preciosidade anti-semita são impressas e distribuídas gratuitamente. Adotado por todos os inimigos do Estado de Israel, tornou-se a própria "bíblia" dos anti-sionistas. A pergunta que deixa perplexos estudiosos e leigos é de que maneira um produto da Rússia czarista, oligárquica e cristã, conseguiu perdurar até hoje e foi adotado entusiasticamente por pessoas das mais diferentes ideologias e crenças religiosas? Uma das razões é o fato de, no texto, não haver qualquer definição de tempo ou contexto nacional e ideológico, podendo ser facilmente "adaptado" a qualquer situação. O texto dos Protocolos é sempre o mesmo, mas cada uma das milhares de edições produzidas ao longo dos anos vem acompanhada de um prefácio que "explica" como o "plano judaico" está em funcionamento naquele preciso momento. As "idéias" contidas nos Protocolos constituem uma poderosa arma em países ou grupos sociais onde prevalece uma situação de frustrações ou incertezas. É sempre mais fácil acreditar que as dificuldades são decorrentes de um "agente externo invencível" - uma conspiração judaica mundial ou o imperialismo americano - do que encarar a realidade. Apesar de outras obras anti-semitas poderem vir a ter maior "embasamento intelectual", foram as imagens conspiratórias dos Protocolos o que conquistou pessoas tão diferentes como o magnata dos automóveis, Henry Ford, membros da Ku-Klux-Klan ou o atual presidente do Irã. O único elo entre os "seguidores" do livro é seu ódio contra os judeus. Quase inacreditável também é o alcance geográfico de Os Protocolos, que pode ser encontrado nos quatro cantos do mundo, até em lugares onde praticamente não há judeus. Após a 2ª. Guerra Mundial, virou best-seller não só em paises islâmicos, mas também no Japão. No Brasil, são inúmeras as publicações. Com o advento da Internet, Os Protocolos passam a ter uma divulgação jamais vista e, desde 1994, circulam livremente na rede mundial versões completas em vários idiomas, sendo indicados como leitura obrigatória em sites de grupos separatistas, nazistas, nacionalistas, do Poder Branco, KKK e até mesmo do MV - Movimento de Valorização da Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil. Denunciar os Protocolos como uma mentira deslavada não é novidade; isto tem sido feito ao longo de quase um século, por profissionais idôneos e muito respeitados. Por que, então, a necessidade de expor, mais uma vez, essa fraude centenária? Lamentavelmente, com a proliferação do anti-semitismo em diferentes partes do mundo, as "verdades" dos Protocolos servem, uma vez mais, de alimento para fomentar sentimentos anti-judaicos. O primeiro a denunciar o texto, ainda em 1920, logo após sua introdução na Europa Ocidental pela mão de refugiados russos, foi o historiador judeu britânico, Lucien Wolf. No ano seguinte, Philip Grave, jornalista do The Times, denunciou em vários artigos como se forjara aquele embuste. Centenas de outros artigos e livros e atualmente até documentários se seguiram, sempre de respeitados autores, que, no entanto, fracassaram em seu intento de convencer seus seguidores de que o panfleto nada mais era de uma grande fraude. Incontáveis são as vezes em que Os Protocolos foram derrotados nos tribunais de vários países. Em 1933, a comunidade judaica da Austrália e, no ano seguinte, da Suíça, moveram ações vitoriosas, para proibir a distribuição do execrado livro. No ano de 1993, em Moscou, houve um processo contra o grupo ultra-nacionalista russo, Pamyat, que alegava ser o texto historicamente legítimo. No Brasil, federações judaicas denunciaram o panfleto e houve sentenças favoráveis pronunciadas nos tribunais estaduais de praticamente todas as cidades onde surgiram seus exemplares, sendo confiscados os estoques dos livros. Raízes "ideológicas"

As acusações contidas nos Protocolos dos Sábios de Sião não são totalmente novas. Algumas, como o mito de reuniões secretas de rabinos para arquitetar planos para subjugar cristãos, fazem parte da literatura medieval cristã anti-semita. Mas, uma fonte de inspiração mais moderna remonta à época da Revolução Francesa, quando, em 1797, o abade Barruel, defensor do Antigo Regime, publicou um trabalho em que afirmava que os revolucionários franceses faziam parte de uma conspiração secreta maçônica, cujo objetivo era tomar o poder. Alegação totalmente sem sentido, pois era a nobreza francesa quem estava profundamente envolvida com a instituição maçônica. No documento inicial, o abade não faz acusação aos judeus, mas, em 1806, ele "enriquece" sua teoria conspirativa lançando e distribuindo uma carta forjada, na qual os judeus eram acusados de fazer parte da conspiração que o autor, anteriormente, atribuíra aos maçons. No entanto, o antecessor direto dos Protocolos foi uma sátira política, os Diálogos no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu ou A política de Maquiavel no séc. 19, por um contemporâneo (1864), de autoria do advogado parisiense Maurice Joly. A trama do livro é um complô elaborado no Inferno. O alvo, Napoleão III e seu regime despótico. No texto, os judeus sequer são mencionados... A sátira de Joly chega à Alemanha em plena efervescência liberal, auge da proliferação das teorias racistas. O livro cai nas mãos de Herman Goedsche, anti-semita convicto, agente incitador da polícia secreta prussiana, conhecido por forjar cartas usadas para incriminar líderes democráticos. Escrevendo sob o pseudônimo de Sir John Retcliffe, Goedsche "adapta" a sátira política de Joly de modo a criar uma "fantasia" sobre a existência de uma conspiração judaica; e incluiu tal "conto" em seu romance, Biarritz, publicado em 1868. No capítulo denominado "O Cemitério Judaico em Praga", o autor "narra" um encontro secreto de rabinos, à meia-noite, quando eram avaliadas as ações realizadas nos últimos cem anos, para dominar o mundo, e eram planejadas as do século seguinte. O conto de Goedsche encontrou terreno fértil na Rússia czarista, onde foi traduzido pela primeira vez em 1872, reaparecendo em 1891 sob o título de Discursos do Rabino. O texto foi utilizado pela Okhrana, a polícia secreta do Czar Nicolau II, para dar substância às suas posições anti-semitas.

A criação dos Protocolos

Após o Caso Dreyfus, em Paris, por volta de 1895, os agentes da Okhrana viram a possibilidade de "adaptar" o texto de Joly. E assim - sem que se saiba ao certo por quem - "criou-se" um panfleto que recebeu o título de Os Protocolos dos Sábios de Sião. O manuscrito foi levado à Rússia e, em 1903, teve sua publicação iniciada, em capítulos, no jornal russo Znamya (A Bandeira). A versão do texto, que circula até hoje, foi publicada pela primeira vez por Sergei Nilus, em 1905, como adendo de seu livro, The Great within the Small. Naquele mesmo ano, após a Revolução de Outubro, o czar Nicolau II, a contragosto, promulgou a Constituição e criou o Duna, parlamento russo. Ansioso para esvaziar a revolução, o Czar achou por bem culpar nosso povo por todos os males da Rússia. Manda publicar, então, para incitar as massas, panfletos incendiários. Os de distribuição mais ampla foram Os Protocolos, que, segundo a Okhrana, eram a "prova incontestável" das intenções judaicas contra a Rússia. Foi após a Revolução de 1917 que Os Protocolos adquirem vida própria. Quando a elite russa foge para outros países da Europa, leva consigo o panfleto, apresentado como "prova" de que a Revolução Bolchevique era parte de uma conspiração judaica mundial. Rapidamente, o conteúdo dos Protocolos se difundiu por vários países, tornando-se excelente munição para qualquer governo que desejasse perseguir os judeus. No ano de 1920, são lançadas em vários países (Alemanha, Polônia, França, Inglaterra e Estados Unidos) as primeiras edições não escritas no idioma russo. No Brasil da Era Vargas, Os Protocolos mereceram atenção especial, ganhando comentários de Gustavo Barroso, ideólogo do integralismo. Foi o aval deste historiador laureado, presidente da Academia Brasileira de Letras, que deu ao famigerado panfleto "o ar de respeitável literatura". Reeditados oficialmente até há pouco tempo, ainda hoje Os Protocolos podem ser encontrados na Internet e em diversas livrarias e feiras de livros. Nos países islâmicos, como mencionado acima, Os Protocolos também se tornaram, desde 1921, uma ferramenta para disseminação do anti-semitismo. Ainda mais intensamente a partir da 2ª. Guerra Mundial e após a criação do Estado de Israel, quando se tornaram um dos principais instrumentos da metódica campanha de propaganda anti-sionista. Apesar de haver uns poucos intelectuais que, de certa forma, timidamente admitem que Os Protocolos sejam realmente uma impostura, de modo geral o mundo muçulmano acredita nas mentiras contidas no panfleto. Nos últimos anos, o texto dos Protocolos tem sido usado para produzir, em vários países do Oriente Médio, mini-séries de TV. O "plano judaico de dominação mundial", incluindo todo o Oriente Médio, e outras "verdades" contidas no panfleto são o tema central dos enredos. Transmitidas em todo o mundo árabe durante o Ramadã, quando da reunião familiar para a quebra do jejum religioso, essas "verdades" conseguem incendiar os ânimos. Entre essas produções destacamos duas - uma, em 41 capítulos, transmitida pela televisão estatal egípcia, "Cavaleiro sem Cavalo", em 2002; e a outra, uma produção síria em 21 episódios, levada ao ar em 2003 pela rede de televisão a cabo libanesa, Al-Manar. Em 2002, o panfleto foi disseminado ainda mais por todo Oriente Médio, quando jornais controlados pelos governos do Egito, Síria, Jordânia e Arábia Saudita, em uma ação coordenada, passam a imprimir e distribuir gratuitamente cópias dos Protocolos dos Sábios de Sião. No ano seguinte, a UNESCO denunciou publicamente a exibição de livros sagrados de religiões monoteístas na Biblioteca de Alexandria, no Egito, onde, ao lado de uma Torá estava exposto um exemplar dos famigerados Protocolos. E, enquanto o atual Presidente do Irã anunciava publicamente o seu intento contra Israel, ordenava a edição e distribuição do panfleto; além disso, uma versão inglesa do livro foi exposta, para espanto geral, no estande de seu país, na conceituadíssima Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Nos anos de 2004 os Protocolos são publicados respectivamente em Okinawa, no Japão; no ano seguinte, uma edição na Cidade do México sugere que o Holocausto foi organizado pelos Sábios de Sião em troca da criação do Estado de Israel. Já transcorreu mais de um século desde que o mundo foi exposto a tão perigosa mentira, que acusa os judeus por todas as ruínas da humanidade - uma acusação de que a nossa existência enquanto Povo seria uma ameaça à paz mundial. Faz quase 100 anos, portanto, que é nosso dever repudiar esta conspiração, expondo-a e a desmascarando, por todos os meios a nosso alcance.

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O BEZERRO DE OURO E OS DEZ ESPIAS

O período de três semanas que se inicia em 17 de Tamuz e termina em Tishá b’Av, 9º dia do mês de Av, é uma época de luto para o Povo Judeu.

O 17º dia de Tamuz, que este ano cai no dia 19 de julho, é um dia de jejum que se inicia antes do nascer do sol e termina após o anoitecer. Nove de Av, neste ano em 9 de agosto, é o dia mais triste do calendário judaico e se jejua o dia inteiro. Excetuando-se Yom Kipur, Tishá b’Av é o único dia no ano judaico no qual somos obrigados a jejuar desde o anoitecer de um dia até o anoitecer do dia seguinte. Mas, enquanto Yom Kipur é um dia solene, mas feliz – por ser o dia do perdão, no qual jejuamos para nos elevarmos espiritualmente – o 9º dia de Av é um dia de tristeza e luto, no qual lamentamos a destruição dos dois Templos Sagrados, ambos ocorridos nessa data sinistra.

Não é coincidência o fato de que tanto o primeiro quanto o segundo Templo Sagrado tombaram nessa data. Ensina o Talmud que as ocasiões felizes tendem a ocorrer em datas auspiciosas e as infelizes em datas infaustas. Por exemplo, o Povo Judeu foi perdoado por D’us pelo pecado do bezerro de ouro no 10º dia do mês hebraico de Tishrei. Esse dia se tornou um precedente para o perdão Divino e foi instituído, pelo Criador, como Yom Kipur – o Dia do Perdão e da Expiação – para todas as gerações subseqüentes.

Mas o inverso também é verdadeiro. Eventos infelizes que ocorreram em certas datas marcaram-nas como dias adversos para as futuras gerações. O 17º de Tamuz foi um desses. O Talmud lista vários eventos trágicos ocorridos nessa data. O primeiro deles, o precedente que marcaria essa data como um dia infausto, foi o pecado do bezerro de ouro, ocorrido no Deserto de Sinai, apenas 40 dias após D’us Se ter revelado a todo o Povo Judeu e proclamado os Dez Mandamentos, que atestam Sua absoluta unidade e unicidade e que proíbem estritamente a idolatria.

O episódio do pecado do bezerro de ouro é um dos relatos mais polêmicos da Torá. Através dos tempos, os Sábios e eruditos tentaram explicar o que levou o povo a cometer tão grave pecado. Especialmente intrigante é o momento de sua ocorrência: realizou-se logo após os Filhos de Israel terem vivenciado a maior Revelação Divina de todos os tempos. Está além do escopo deste ensaio uma análise profunda e completa do episódio, mas o que podemos dizer é que o Povo Judeu cometeu vários erros, o que o levou a criar o bezerro de ouro.

O primeiro deles foi um simples erro de cálculo, mas teve consequências catastróficas. Após a Revelação Divina no Monte Sinai, Moshé ascendeu ao mesmo para receber a Torá. Ele disse ao povo que retornaria em 40 dias. Eles o esperavam de volta no dia 16 de Tamuz, pois contavam o dia de sua subida como o primeiro dos 40. Quando chega o 16º dia sem que seu líder tivesse retornado, eles pressupõem que ele estivesse morto. Eles não percebem que ele voltaria quando se completassem 40 dias completos, ou seja, no 17º dia de Tamuz. Pensando, então, que Moshé tivesse morrido, o povo se pergunta: Agora que nosso pastor se foi – o homem que nos ligou a D’us, e que serviu de Seu porta-voz, comunicando-nos a Sua Vontade – quem irá substituí-lo? Quem servirá de interface entre D’us e nós?

Decidem, então, que seria um bezerro feito em ouro. Por que um bezerro, especificamente? Porque quando D’us Se revelou no Monte Sinai, o povo, que teve a maior visão profética de todos os tempos – que suplantou mesmo a do profeta Ezequiel – contemplou a visão sublime e mística da Merkavá, a Divina Carruagem Celestial, e julgou perceber, entre outros, as feições de um touro. Como o Povo Judeu viu a imagem de um touro ser projetada pela Carruagem Divina, julgou que esta imagem seria o meio adequado para lhes servir de conexão com D’us. Para muitos judeus, o bezerro de ouro serviria, pois, não como substituto de D’us, mas de Moshé.

No entanto, havia também aqueles que entendiam o bezerro de ouro como “substituto” de D’us. Alguns milhares de egípcios que haviam deixado sua terra junto com os judeus interpretaram a suposta morte de Moshé de maneira diferente, mas que também os levou a convencer os judeus a criar um bezerro. Quando Moshé não desce da montanha no dia esperado, os egípcios especulam que talvez houvesse outra explicação para as pragas que se haviam abatido sobre seu país. Quem sabe, pensavam, não fora o D’us dos judeus quem vencera a natureza e os salvara, mas simplesmente uma força da natureza se tivesse sobreposto a outra? Os egípcios tinham um culto especial de adoração ao carneiro, cujo símbolo no Zodíaco é Áries, e que é associado ao mês de Nissan, mês em que ocorreu o Êxodo judaico. O símbolo que se segue no Zodíaco é Touro. Os egípcios raciocinaram que talvez os judeus tivessem sido salvos no mês de Nissan porque Touro tivesse vencido Áries. Sua teoria era tão “racional” e convincente que alguns judeus a aceitaram e, por essa razão, o ídolo que construíram foi um bezerro, filhote do touro. Cabe notar que em Salmos, 106:20, o bezerro de ouro é especificamente chamado de “touro”.

O pecado do bezerro de ouro foi, portanto, resultado de vários fatores: um erro de cálculo e falta de paciência, interpretação errônea de uma impactante experiência mística e argumentos convincentes de idólatras, que acreditavam nas forças da natureza e sinais astrológicos, mas não n’ Aquele que os criou e tudo controla. Essas justificativas para o pecado do bezerro de ouro não o desculpam por completo: de fato, os judeus cometeram um terrível ato de idolatria. E esse pecado foi tão grave que quando Moshé retorna ao acampamento judaico em 17 de Tamuz e vê, com seus próprios olhos, o povo adorar o bezerro de ouro, ele quebra as Tábuas dos Dez Mandamentos que D’us Próprio moldara. Além disso, o pecado do bezerro de ouro quase resulta no aniquilamento do Povo Judeu por D’us. Moshé teve que orar, com todo fervor, durante 120 dias, e invocar os méritos dos três Patriarcas para que o povo fosse poupado. Apesar do perdão Divino, que foi concedido em Yom Kipur – o dia em que Moshé retornou com um segundo par de Tábuas contendo os Dez Mandamentos – o pecado do bezerro de ouro marcava o dia 17 de Tamuz como um dia infausto no nosso calendário. Através da história judaica, antiga e contemporânea, nesta data ocorreram vários eventos trágicos para todo o nosso povo.

Tishá b’Av e os dez espiões

O dia 17 de Tamuz é um dia de jejum que marca o início das três semanas de luto, mas o dia mais triste do calendário judaico é o último dia desse período infausto: Tishá b’Av, o 9º dia do mês hebraico de Menachem Av. Qual o evento que marcou esse dia como o mais nefasto em nosso calendário? Foi um incidente que também ocorreu enquanto nosso povo se encontrava no deserto de Sinai, apenas um ano após o pecado do bezerro de ouro.

Esse episódio está relatado na porção Shelach da Torá, no quarto livro, Números – em hebraico, Bamidbar. O Povo Judeu estava prestes a entrar na Terra Prometida quando seus integrantes tiveram uma idéia e a sugeriram a Moshé: que se fizesse uma missão de reconhecimento na Terra de Israel – uma vistoria militar exploratória para coletar informações sobre a mesma – para que assim a pudessem conquistar mais facilmente. Moshé consulta o Eterno acerca da idéia e D’us lhe diz, pela primeira vez na vida do profeta, que ele agisse de acordo com sua intuição.

Moshé convoca doze líderes do povo, um de cada tribo, e os manda espionar a Terra Prometida. (Ver Morashá n0 37). Havia várias razões para ele levar avante a idéia da missão de reconhecimento. Primeiro, os espiões iriam familiarizar-se com a Terra de Israel: esse seria o primeiro passo para conquistá-la. Segundo, Moshé acreditava que após ver a Terra, os espiões ficariam ainda mais entusiasmados em conquistá-la e nela habitar, e inspirariam os demais com sua vibração. Terceiro, a missão tinha uma razão mais profunda, espiritual: ele mandara doze homens, um de cada tribo, porque a Terra seria dividida em 12 partes, uma para cada tribo. Os espiões deveriam percorrer toda a Terra para possuí-la espiritualmente para suas respectivas tribos: tratava-se de um prelúdio para a posse física da Terra.

Para essa importante missão, Moshé escolhe os 12 Meraglim, espiões em hebraico – a nata do Povo Judeu. Eles retornam 40 dias depois. Dez deles colocam-se diante de todo o povo e fazem exatamente o contrário do que seu líder esperava. Ao invés de louvar a Terra, ao invés de demonstrar entusiasmo e confiança em sua capacidade de conquistá-la, eles difamam a Terra Prometida e fazem um relato nefasto. “É uma terra que engole seus habitantes”, dizem ao povo. “Gigantes a povoam; é maciçamente fortificada. Sentimo-nos como gafanhotos perante seus habitantes e, de fato, assim eles nos viram. É demais para nós. Jamais a poderemos conquistar”. Somente dois dentre os 12 Meraglim – Yehoshua bin Nun (Ver artigo pág. 12) e Calev ben Yefuné – foram totalmente contrários ao relato. Mas em quem os judeus optaram por acreditar? Na maioria, nos dez espiões. Seguiu-se uma verdadeira comoção coletiva. Choro e lamentos por toda parte, expressando o desejo de retornar ao Egito. Quando D’us ouve o povo chorar, em total falta de fé no Criador e em Sua promessa de os levar à Terra Prometida, Ele emite o seguinte decreto: “Esta noite choram sem razão. Eu prometo que no futuro, hei de lhes dar boas razões para chorarem”. A noite na qual os espiões difamaram a Terra perante o Povo Judeu e na qual houve total descontrole e choro coletivo era 9 de Av, Tishá b’Av.

A reação Divina a todo o episódio dos espiões e à reação do povo é muito intensa e grave. O Todo Poderoso executa os espiões e ameaça aniquilar o Povo Judeu. Assim como no incidente do bezerro de ouro, Moshé intercede junto a D’us em favor de seu povo. D’us se compadece e poupa Seu povo da destruição, mas Ele decreta algo que não havia decretado após o pecado do bezerro de ouro. À exceção de Yehoshua e Caleb, aquela geração de judeus, que chorara ao ouvir o relato dos dez Meraglim, morreria no deserto. Eles haviam reagido de forma descontrolada porque tiveram medo de adentrar na Terra, e, portanto, seu desejo seria concedido: nenhum deles teria permissão de pisar em Israel. Somente seus descendentes, a próxima geração de judeus, iria entrar na Terra Prometida, liderada por Yehoshua bin Nun, servo fiel de Moshé.

 Comparando os dois pecados

Dos dois episódios acima descritos, qual dos dois poder-se-ia dizer ser o pecado mais grave: cometer idolatria ao moldar e adorar um bezerro de ouro ou difamar a Terra de Israel e demonstrar falta de fé em D’us? A maioria das pessoas julgaria ser o primeiro, já que a idolatria é um pecado cardinal no judaísmo; é a rejeição de toda a Torá e é um dos poucos pecados que um judeu tem que evitar a todo custo, mesmo à custa de sua vida. Por outro lado, o incidente dos espiões nem sequer parece ser um pecado. Não fosse pela reação Divina e por Seu decreto de que o povo permaneceria no deserto, talvez nem atribuíssemos qualquer transgressão aos dez Meraglim. Afinal, eles foram enviados para espionar a Terra e quando retornaram, simplesmente relataram o que viram. Não mentiram nem exageraram. A Terra era, de fato, habitada por gigantes; era maciçamente fortificada e exigiria, como ocorreu, sob a liderança de Yehoshua, intensas batalhas e milagres, para que pudesse ser conquistada.

O pecado dos espiões residiu na forma como fizeram seu relato. Eles tinham sido enviados por Moshé – não pelo Povo Judeu; portanto, deveriam ter apresentado seu relatório apenas a ele, em particular. Se tinham preocupações ou temores, eles deveriam tê-los levado a seu líder. Mas, ao invés disso, apresentaram seu relatório perante todo o Povo Judeu, causando aquele tumulto de massa. No tocante aos judeus, seu pecado, que lhes custou a entrada na Terra Prometida, foi que, em um único momento, a psique de um povo todo se modificou. Eles se esqueceram da redenção no Egito, das Dez Pragas, da abertura do mar, da Revelação no Monte Sinai e das promessas Divinas de que eram o Povo Escolhido por D’us e de que Ele os conduziria em segurança à Terra Prometida. Ao ouvir o relato dos dez espiões, eles expressaram a mentalidade de escravos: temor, apreensão e o sentimento de que nós, judeus, somos pequenos e fracos, e que o mundo é grande e forte. Desaparecera sua fé no Todo Poderoso, apesar de todos os Seus sinais, milagres e revelações.

Se o grau de punição é sinal da intensidade de um pecado, então o episódio dos espiões foi mais grave do que o do bezerro de ouro. Como vimos acima e isto merece ser repetido, os judeus foram proscritos de entrar na Terra após o pecado dos espiões, não do bezerro de ouro. Mas, ainda mais significativa é a data do pecado dos espiões – Tishá b’Av – que se tornou o dia mais nefasto do calendário judaico. Em 17 de Tamuz nós jejuamos durante o dia; em Tishá b’Av, o fazemos noite e dia. Ao longo da História Judaica, aconteceram eventos tristes na data de 17 de Tamuz, mas foi em 9 de Av que os eventos mais trágicos na história de nosso povo ocorreram. Entre esses, a queda dos dois Templos, que resultaram na Diáspora e em seus inúmeros episódios dolorosos – a longa história de perseguições e discriminação, decretos e expulsões humilhantes, os pogroms, a Inquisição e, acima de tudo, o Holocausto.

Há uma pergunta que paira no ar: por que o pecado dos espiões, mais do que o do bezerro de ouro, teve conseqüências maiores e de mais longo alcance na História Judaica?

As falhas da liderança

A palavra Torá deriva da palavra hora’á, que significa instrução. Tudo que consta na Torá é uma lição para todos os judeus e para todas as gerações. O livro sagrado não descreve as transgressões de nossos antepassados para difamá-los, mas para nos ensinar uma lição. Neste artigo, também, nosso propósito não é apontar erros e falhas em nossos antepassados – aqueles que tiveram o mérito de ouvir a Voz de D’us e de receber a Torá – mas, sim, aprender com seus erros. Para enfatizar esse ponto, é apropriado relatar a seguinte história.

Certa vez, um judeu foi ao Rabi Menachem Mendel de Kotzk, o famoso Rebe de Kotzk, que era conhecido por sua devoção à verdade. “Rebe,” perguntou o judeu, “não entendo por que prezamos tanto o Chumash. Esta obra está repleta de relatos de pecados: o pecado do bezerro de ouro, o pecado dos espiões, e tantos outros pecados”. E o Rebe lhe respondeu: “Meu caro judeu. A partir dos pecados e transgressões daquela época compilou-se uma Torá. Temo que a partir de suas virtudes e mitzvot, não se compilará uma Torá”.

D’us escreveu na sua Torá relatos que nem sempre são elogiosos a nossos antepassados porque Sua intenção era ensinar lições a todas as gerações do Povo Judeu. O episódio do pecado do bezerro de ouro, por exemplo, contém inúmeras lições dentro de si. Ensina-nos que não necessitamos de objetos ou seres humanos para nos conectar com D’us. Bem verdade, um ser como Moshé é importante; carecemos de líderes espirituais e mestres. Mas na falta destes, não buscamos intermediários. D’us está em toda parte e Ele nos deu os meios de nos conectarmos a Ele, que são Sua Torá e seus Mandamentos, as orações e os atos de bondade. Outra lição: não precisamos ir atrás de experiências místicas que levem à confusão espiritual e ao distanciamento da Torá, pois isso geralmente resulta na prática da idolatria ou em uma forma não autêntica de judaísmo. E, por fim, não devemos nos deixar influenciar por argumentos racionais e convincentes vindos de quem nega a existência e a unicidade de D’us. O pecado dos dez espiões também nos ensina várias lições. O episódio deixa claro que quem não valoriza a Terra de Israel não é digno de lá viver. A Terra Prometida é a Morada Terrena da Shechiná, a Presença Divina. Essa Terra foi prometida aos Patriarcas – Avraham, Itzhak e Yaacov – como herança eterna do Povo Judeu. Aqueles que não têm amor pela Terra, aqueles que se opõem à presença judaica em seu território, independentemente de serem ou não judeus, far-lhes-ia um grande bem estudar a história dos espiões. Esses dez homens que difamaram a Terra foram prontamente aniquilados por D’us e o povo que chorou e se lamentou foi impedido de pisar no solo sagrado.

Quem acredita que a Torá é a Palavra de D’us não pode opor-se à presença judaica em toda a Terra de Israel. Não surpreende, pois, que tantos milhões de cristãos em todo o mundo, que acreditam no Tanach – ao qual chamam de Velho Testamento – dêem seu total apoio ao Estado de Israel. É também digno de menção o fato de que os cidadãos de Israel se referem a seu país como “Haaretz” – “a Terra”, e não “HaMediná”, o Estado. Está além do poder de qualquer ser humano ou de qualquer organismo político modificar as fronteiras da Terra de Israel. Somente D’us pode fazê-lo. De fato, nossos Sábios ensinam que na Era Messiânica, a Terra de Israel, Eretz Israel, espalhar-se-á e cobrirá o mundo todo. Ou seja, sua santidade será disseminada por toda a Terra.

Ambos os episódios – o do bezerro de ouro e o dos espiões – ensinam-nos muitas lições, mas as mais reveladoras são as que se originam da comparação entre ambos. Ao analisá-los em conjunto, fica claro que a Torá nos ensina que a confusão espiritual e os pecados cometidos contra D’us são menos sérios que a falta de fé n’Ele e o pânico e o descontrole coletivo. A pessoa pode ser perdoada por cometer um pecado terrível como a idolatria; mais difícil é perdoar a total falta de confiança no Eterno e em Suas promessas.

O Povo Judeu cultuou e adorou um bezerro de ouro porque se sentiu desgovernado, sem Moshé; vivenciaram um evento místico – a visão da Merkavá – A Carruagem Celestial – que talvez tenha sido muito forte para a maioria deles. Pecados desse tipo, pelos quais pedimos perdão em Yom Kipur, são chamados de “pecados cometidos pela confusão do coração”.

Mas o episódio dos espiões foi cometido pela liderança do Povo Judeu – por pessoas mais preparadas que as demais. Há inúmeras explicações para o que fizeram: a generosa, é que difamaram a Terra porque queriam permanecer no deserto estudando a Torá liderados por Moshé; entrar na Terra significava ter de lutar, trabalhar e se preocupar com os afazeres do cotidiano. Outra explicação, não tão generosa, seria a de que entraram em pânico e contaminaram o povo todo com seus medos. Mas, seja qual for a razão para agir como agiram, o resultado final foi terem difamado Eretz Israel – Morada da Divina Presença na Terra e herança eterna do Povo Judeu – levando os judeus ao total descontrole. Verdadeiros líderes não agem assim, jamais. Um homem pode pecar em sua vida privada e ser perdoado por D’us, mas um líder, uma pessoa responsável por outros – e não importa se é um pai, professor, rabino ou o primeiro ministro de Israel – não pode permitir-se falhar em sua posição de poder, pois suas falhas afetam a vida de muitos outros.

Ao discutir o pecado do bezerro de ouro e o dos dez Meraglim, pode-se estabelecer um interessante paralelo com os reinos dos dois primeiros reis de Israel – Shaul e David. Ensina-se que Shaul era uma alma mais pura que David, mas que este último era um melhor rei. Shaul pecou enquanto rei; ao passo que se o Rei David pecou no episódio de Bat-Sheva, este episódio é passível de discussão. Mas mesmo que tenha pecado, tratou-se de um pecado particular: não afetou o Povo Judeu como um todo. Shaul pode ter tido um caráter impecável, mas David foi um líder impecável. E, portanto, a monarquia de Israel foi tirada da Casa de Shaul e entregue, perpetuamente, à Casa de David. Não surpreende, portanto, que o Mashiach, que erguerá o Terceiro Templo de Jerusalém, seja descendente do Rei David. De fato, há uma opinião no Talmud que indica que seu nome será David. Sabemos que os dois Templos Sagrados foram destruídos em Tishá b´Av – a data em que dez líderes judeus expressaram falta de confiança em D’us e falharam como líderes.

O Mashiach, que irá personificar a liderança do Rei David e infundir a humanidade com conhecimento e fé em D’us, irá reverter o dano causado pelos líderes do passado, cujas ações criaram um precedente que, mais tarde, levou à destruição do Palácio de D’us e ao exílio de Seu Povo.

Há uma tradição de que a alma do Mashiach nasceu no dia de Tishá b'Av quando o Templo foi destruído, e que permanece em Gan Eden, no Paraíso, aguardando para vir ao mundo. Há, também, uma tradição que diz que ele virá a este mundo em Tishá b'Av, para que a redenção ocorra na data da destruição. Que isso ocorra muito em breve, em nossos dias.

Bibliografia:
Chumash Shemot - The Book of Exodus - With an Interpolated English Translation and Commentary Based on the Works of the Lubavitcher Rebbe, Kehot Publication Society

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         Fonte: www.judaismo.com.br

Judeus da Ilha da Madeira - Grupo - Facebook
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Este grupo foi formado com a finalidade de reunir os descendentes dos judeus anussim e ou as famílias anussim judeus e parentes dos Judeus da Ilha da Madeira e para todos os que sentem o ardor e a paixão no coração para o povo judeu, Israel, Torah e o "judaísmo", com a finalidade de descobrir seu judaísmo através de experiências de outras pessoas.... Porque "o sangue de seus antepassados te chama", mesmo sem você saber.

Queremos que este grupo seja uma aprendizagem e partilha de experiências, para todos que nos visitam.

Este grupo trata apenas de retorno de anusim para o Judaismo e nao somos messianicos ou evangelicos, por isso só abordamos assuntos relacionados com genealogia e o retorno dos descendente de Judeus ao Judaismo.

Desejamos que este grupo possa abrir os olhos daqueles que ainda estão à procura de sua identidade e esperamos que você encontre respostas aqui.

Vamos compartilhar um pouco de história e fatos, mas principalmente, será a sua partilha, descoberta e juntar as peças através de sua própria família, o que trará para fora e revelar-lhe a certeza de seu judaísmo.

Por favor, fique à vontade para postar comentários, compartilhar imagens, vídeos. Tudo o que é bom para todos nós.

Bem-vindo a bordo!!

Anussim-Definition

Anussim (hebraico: אנאסים), significa "aqueles forçados" em hebraico. Na lei judaica, este é o termo legal aplicada a um judeu que foi forçado a abandonar o judaísmo contra a sua vontade, mas faz tudo o que estiver em seu poder para continuar a praticar o judaísmo sob a condição forçada. Ela deriva do termo talmúdico avera ser "aqueles [Talmud, Avodá Zará 54a], que significa" uma transgressão forçado. " O verbo hebraico preocupados originalmente se referia a qualquer caso em que um judeu foi forçado a qualquer ato contra a sua vontade.

O termo "anussim" foi usada com mais freqüência após a conversão forçada ao cristianismo dos judeus alemães no final do século 11 CE. Rashi, um rabino francês que viveu durante este período, escreveu sobre o assunto em seu parecer jurídico. Por causa da massa de conversão forçada dos judeus em Espanha e Portugal durante os séculos 14 e 15, o termo passou a ser amplamente utilizado por rabinos espanhol e seus sucessores para os seguintes 600 anos.vamos aprender juntos sobre nossas origens, nossa história, nossos antepassados, trazendo esse passado para a luz, para iluminar o caminho do nosso futuro eo futuro dos nossos filhos. Que a nossa história, vai força-los, ensiná-los a apreciar mais os seus valores, quem somos, de onde viemos, mas acima de tudo a força e consolidar a nossa fé em Ha Shem, eo amor para nossas famílias, que sacrificaram tanto em Para que você e eu estar aqui hoje participando deste conjunto de conhecimentos para o nosso próprio bem e bem de nossas crianças.

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